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o dinheiro

O dinheiro já tinha perdido a relevância pra mim antes, no navio. Apesar do salário ser um dos maiores atrativos pra embarcar, quando se está lá privado de uma caralhada de coisas, ele perde o valor. A gente saía pra comer sem perguntar o preço de nada, a gente não tinha dó porque o prazer das comidas ou das coisas era muito maior do que o valor do dinheiro. E quando dá na telha de ir embora, salário nenhum segura a pessoa lá.  Dessa vez foi diferente, durante o tratamento. Um dia passou na tv não sei o quê de sorteio que ganhava 1 milhão de reais. Aí eu parei pra pensar que mesmo que eu ganhasse aquele dinheiro, a minha vida não ia mudar absolutamente nada, meus problemas continuariam ali e o tratamento seguiria. Meu sofrimento não mudaria, nem diminuiria. E vou te falar que não ser uma questão de dinheiro é uma das coisas mais desesperadoras que tem. Porque em última análise, os problemas em geral têm relação com falta de dinheiro. Mesmo quando se tem muito, a ganância inerente ao h…

prólogo

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Quando eu era pequena, assistia Cartoon Network absolutamente todo dia, o dia inteiro. Eram os melhores desenhos, a melhor programação. Até assistia alguns desenhos da Nickelodeon mas Cartoon veio antes, o amor era mais forte. Tenho várias memórias envolvendo Johnny Quest, Speed Racer e Scooby Doo na madruga, que provavelmente era umas dez da noite, mas parecia madrugada. Em algum momento dessa fase que eu não lembro muito bem qual, passava tipo uns curtas, entre um desenho e outro. Eram histórias meio macabras, meio bizarras, muito envolventes mas quase inacreditáveis. E elas sempre começavam com o narrador dizendo:
- Esta é uma história verdadeira, aconteceu com um amigo de um amigo meu.




porquê eu detesto papinho de hospital

Quando você está com as mãos vazias, é fácil pensar em ajudar uma pessoa cheia de sacolas. De alguma forma eu imagino essa metáfora melhor se forem bolas, aquelas de borracha que ganha no posto. Coloridas. É fácil pensar em ajudar uma pessoa com várias bolas dessas na mão se você está com as mãos vazias. Eu mesma estou estudando bastante pra ser uma profissional que retira ou segura as bolas coloridas das mãos das pessoas, em diversas situações. Nesse dia eu estarei sem nada nas mãos. Nesse dia eu vou poder verdadeiramente ajudar. Mas no momento, senhora, eu estou aqui com várias e várias bolas coloridas e saltitantes nas mãos, elas caem às vezes, é um cu de pegar. Eu tenho de todas as cores e alguns dias eu tô carregando poucas, outros muitas mas eu tô sempre carregando alguma. Aqui, no hospital, todo mundo tá com a sua própria carga. Então não venha jogar suas bolas em mim, eu não quero e não posso te ajudar a carregar.
Esta foi a maior demonstração de egoísmo que eu já postei. Fod…

não te demores

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"Onde não puderes amar, não te demores"
Sempre pensei que a Frida falava de amor romântico, pra gente sair fora de relacionamentos que não eram de amor verdadeiro. Nunca dei bola pra esse tipo de coisa, esse tipo de frase. Nunca gostei muito de generalização de relacionamento, papinhos assim me cansam. Mas um dia percebi que minha guerra é com o meu ódio, que se eu não presto muita atenção em mim, eu reclamo demais, falo de coisas ruins, eu julgo. Sei que não posso, que não faz bem pra mim. Tento emanar amor a todo tempo, mudo o pensamento quando não consigo pensar o bem. As vezes o amor não brota, então eu simplesmente mudo o foco. Não me demoro. E tomo uma graça nova por essa frase que talvez não tenha é nada ver com boyzinho, né Fri?

Dona Hilda

Quero aproveitar os pensamentos que eu tive ontem, voltando do luau, que foram uma explicação muito maravilhosa sobre como funciona o mundo. Mas como eu tava alucinando, talvez não saia. Mas vai sair. A gente faz visitas em Trabalho em Saúde. A gente faz visitas em uma caralhada de matérias nessa faculdade, o que é ótimo. Saúde pública rocks. Mas essas experiências têm se tornado repetitivas em vários fatores, apesar da infinidade que cabe dentro da vida humana. Justamente essa infinidade de possibilidades de existências me fez pensar sobre sofrer a dor do outro. E misturou com um pensamento meio babaca, que virou um post meio prepotente, que na verdade terminou bem. Basicamente eu não sei da sua dor, você não sabe da minha. Eu tenho aqui meus problemas que são socialmente gold! Câncer, caralho! Ninguém discute, ninguém nem compete, nem tenta vir pra mim e falar "ah não mas nossa eu tenho hemorróida, acho que é pior". Só a que a real é que talvez eu sucumbiria completamente…

a brisa que eu tô vivendo

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Vai parecer zuera esse texto porque eu tenho um certo histórico, e na verdade não tem muito problema de parecer zuera. Porque talvez seja. Mas não é. Depende do curso que você faz, dá pra chamar de psicose.
Em um curto espaço de tempo, que eu diria que é menos que uma semana, eu passei por dias extremamente difíceis e esquisitos. Até escrevi aqui, postzinho bem pesado que talvez tenha marcado qualquer coisa de começo da brisa. Acredito que eu tenha passado por muita dor física e literal, dor desesperadora. Eu não sou uma pessoa forte e resistente à dor, eu fico desesperada ao menor sinal e, de repente eu sentia muita dor. Sei lá porque, mas no joelho. E eu sabia que o que tava causando a dor era um remédio profilático que eu tinha começado a tomar, cuja bula não mencionava nenhum tipo de dor mas que eu vivi coisas suficientes pra acreditar nas sensações meio inexplicáveis que a gente tem. São conjuntos de micro-condicionamentos, na verdade, que é bem científico. Ou são processos do in…

dias piores

Este é mais difícil porque fala de depressão, que eu tenho. A depressão quer dizer que a pessoa não consegue enxergar um propósito para si em determinado momento, que é exatamente o que acontece comigo hoje. Hoje. Hoje é impossível para mim sentir verdadeiramente que essa condição vai passar, no sentido mais puro e sincero que eu poderia descrever. Falando de sentir, honestamente.  Existe um outro lado, existe o mecânico. Existe o fato de que eu tenho uma consciência pautada em experiências anteriores de que isso é uma fase, que são dias ruins e que isso vai melhorar. São fatos aos quais eu me apego racionalmente e que evitam o desespero. É o único motivo pelo qual eu não estou desesperada, por conta da lógica. Racionalmente eu sei, dentro do meu coração eu não sinto. São dias ruins. Mas são dias que parecem que pioram ao invés de melhorar, em que eu vejo minhas pernas cada dia mais finas, respondendo cada vez menos aos movimentos. O cansaço beira o absurdo, é ridículo. E o inchaço é…