O Divã IV - Sem Cortes

Mas antes, leia esse, esse e esse. Nessa ordem, porra.

- Boa tarde, Natália
- Ah! Oi.
- Oi, como vai?
- Bem, bem. Cadê seu estagiário?
- Estagiário?
- É, o loirinho que estava aqui da última vez que eu vim.
- Ah sim, é meu filho. Engraçado, ele não comentou que você veio.
- Filho? Ah! Sei...
- E sobre o que vocês conversaram?
- Ah, nada de importante... Heh.
- E o que te traz de volta?
- Ele. Quer dizer, o que a gente fez. Conversou. O que a gente conversou.
- E o que seria?
- Doutor, é o seguinte. Você é um cara que estudou o comportamento humano e talvez possa me diagnosticar.
- Se houver o que se diagnosticar, não é? Muitas pessoas acham que têm algum problema mas na verdade tudo faz parte da vida, até as coisas mais estranhas.
- É, não tem nada de estranho nisso.
- Me conte.
- Bom, eu gosto de uma coisa. Que vicia.
- Certo.
- E eu ultimamente não vivo mais sem essa coisa.
- Hum, entendo. Com que freqüência você usa essa coisa?
- Bem menos do que eu gostaria.
- E há quanto tempo está viciada?
- Faz quase 5 anos. Mas no começo eu não viciei não. Da primeira vez que eu experimentei, ainda no colégio, achei estranho demais, me senti mal e jurei que nunca mais repetiria aquilo.
- Mas?
- Mas um tempo depois me ofereceram de novo e eu não pude recusar, apesar dos riscos.
- Riscos?
- É, eu estava em um ambiente familiar. E se alguém notasse minha mudança de comportamento. Até as mudanças físicas, sabe?
- E mesmo assim você repetiu?
- É, repeti. E não foi tão ruim nessa segunda vez. A partir da terceira eu passei a gostar de verdade. Conheci um pessoal que trabalhava comigo e adorava isso. Freqüentemente eu curtia uma vibe dessas com colegas meus de trabalho.
- Aumentou o uso?
- Consideravelmente.
- E então?
- Então comecei a fazer coisas inimagináveis, incabiveis. Tudo em nome do vício. Me via em situações adversas e até perigosas;
- Perigosas?
- É, os riscos foram aumentando, aumentando, minha noção de perigo foi diminuindo e eu quase me dei mal de verdade.
- E você percebe que perdeu a noção.
- É, agora eu percebo. Falando assim eu sei que é errado e que eu tenho que ser mais cuidadosa.
- Mais cuidadosa? Você não pensa em parar?
- Depois dessa vez que foi perigosa eu parei por um tempo. Trauma, sabe? Mas depois eu acabei voltando com tudo. E agora estou enfrentando uma das piores abstinências. Por isso voltei, queria que seu filho me ajudasse.
- Meu filho? Por que ele?
- Porque a gente já fez isso juntos uma vez.
- MEU FILHO FEZ ISSO? COM VOCÊ?
- Fez, ué. Por que está gritando? Você acha o quê? Que era a primeira vez que ele fazia aquilo?
- E NÃO ERA?
- Magina, ele me pareceu bem experiente.
- O QUE VOCÊ ESTÁ DIZENDO? QUE MEU FILHO É UM DROGADO?
- Drogado?